Em órbita

Apesar de todos esses detalhes ficaria claro mais tarde, que Gagarin e seus colegas em terra sabiam perfeitamente da importância de entrar na trajetória correta. As transcrições das comunicações por rádio entre Gagarin e a estação terrestre Zarya 3 em Elizovo na Península de Kamchatka, no Extremo Oriente soviético, revelam tentativas seguidas do cosmonauta em obter confirmação sobre os parâmetros da sua órbita. Em um momento Gagarin aparentemente perdeu a paciência, pois recebeu inúmeras respostas sem sentido e perguntas sobre sua condição, feitas por um controlador em solo, não conseguia ou não queria fornecer informações úteis. Observe o trecho a seguir:

Gagarin: Chamando Zarya 3, como você está me ouvindo?
Gagarin: 3 Zarya, como você me ouve, como você está me ouvindo? Não ouvi Vesna (ondas curtas estação terrestre), não ouço Vesna.
Zarya 3 (Karpenko): Entendido, podemos ouvir você satisfatóriamente.
Gagarin: O vôo está indo bem, tudo está indo bem comigo. O que vocês podem dizer?
Gagarin: O vôo está decorrendo com êxito. A sensação de leveza é normal. Me sinto bem. Todos os instrumentos, todo o sistema está funcionando bem. O que vocês podem me dizer?
Zarya 3 (Karpenko): Escutamos você bem, instrumentos trabalham bem, sentindo bem.
Gagarin: Ouvi perfeitamente. O que você pode me dizer sobre o vôo? O que você pode me dizer?
Zarya 3 (Karpenko): Instruções do 20º (Korolev),não foram bem recebidas. O vôo está indo bem.
Gagarin: Entendido, não houveram instruções do 20º. Reporte seu dados sobre o vôo. Diga Olá para Blondie (uma referência ao seu companheiro cosmonauta Aleksei Leonov em Elizovo).
Zarya 3 (Karpenko): Como você está me ouvindo?
Gagarin: Boa audição. E você?
Zarya 3 (Karpenko): Como está se sentindo?
Gagarin: Estou me sentindo um ilustre, perfeito, perfeito, perfeito. Diga-me os resultados do vôo!
Zarya 3 (Karpenko): Repito, não posso ouvir bem você.
Gagarin: Estou me sentindo muito bem, muito bem, bem.
Gagarin: Reporte-me os seus dados sobre o vôo!
Zarya 3 (Karpenko): Como você me ouve …?

Quando o controlador em terra faz referência à falta de instruções de Korolev, fornece uma dica sobre o seu medo de dar todos os dados sem permissão explícita dos chefes superiores. A fúria de Korolev sobre seus subordinados é lendária (a história soviética, desde o desastre Nedelin ao acidente de Chernobil, está cheia de exemplos, quanto à economia de informação por uma questão de sigilo ou medo dos superiores). No entanto, é possível também que, apesar de todo o planejamento, os controladores da missão simplesmente não tinham confiança nos parâmetros orbitais da nave no momento que a nave de Gagarin surgiu dentro da faixa de Elizovo, apenas 20 minutos após a decolagem.

A história oficial da rede de controle de solo afirma apenas que:

… Esta missão vitoriosa teve problemas inaceitáveis, que se tornaram uma fonte de profunda preocupação e até mesmo de estresse (entre os controladores de vôo). Foi o que aconteceu quando um curto prazo de interrupção de comunicações em UHF de Korolev com o cosmonauta ocorreu durante a passagem da nave espacial sobre a faixa de terra da estação Shagan Sary … Aconteceu também quando o controle da equipe de vôo regional liderado pelo futuro cosmonauta Aleksei Leonov não recebeu dados do Centro de Coordenação de Cálculo em Moscou sobre a real órbita da Vostok no momento do contato com Gagarin. Na época, Leonov, de modo a não preocupar Gagarin, assumiu a responsabilidade para si ao dizer ao cosmonauta que a órbita era normal. Não poderia estar mais longe da verdade … Aconteceu também, quando o operador do posto de comando em Kamchatka, enviou um comando para a nave espacial para ativar o PVU (PVU Granit timer para a manobra de frenagem), sem levar em conta a real órbita ainda a ser calculada…

A última afirmação é particularmente polêmica, pois, segundo muitas fontes fidedignas, a ativação do temporizador Granit PVU foi provocada pela separação entre a nave e o terceiro estágio, e não por um comando a partir do solo. No entanto, dada a influência da órbita final sobre a precisão do pouso, um comando de solo para ativar o dispositivo parece lógico.

Em todo caso, meio século depois do vôo de Gagarin, fica claro quando ele foi informado pelo controle de solo sobre a órbita do vôo, no momento em que a Vostok deixou o alcance da estação terrena Elizovo e mergulhou na escuridão sobre o Oceano Pacífico. Obviamente, muitos dos detalhes só foram conhecidos após a aterrissagem.

Entretanto, depois da Vostok ter saído da faixa de UHF dos receptores de Elizovo, a comunicação de voz com o cosmonauta só pode ser mantida através de estações de ondas curtas em Khabarovsk (no Extremo Oriente soviético) e, mais tarde, em Moscou. De acordo com Yuri Gagarin, comunicações de ondas curtas eram muito ruins, sua nave espacial atingiu o apogeu de sua órbita durante a noite do Pacífico Sul.

Gagarin perdeu o primeiro pôr do Sol em órbita e só percebeu isso quando já não era possível ver todas as características fora da espaçonave, além de estrelas ocasionais. Com as janelas “cheias de trevas”, ele começou a fazer anotações no caderno de vôo, enquanto ainda vestia as luvas de seu traje espacial. Ele então deixou o bloco de escrita flutuar sem peso para fazer uma pausa para um lanche no espaço. Ele não encontrou problemas para comer ou beber, porém, quando ele pegou seu bloco mais uma vez, o lápis que estava preso a ele por uma corda, tinha sumido. Ele então decidiu usar seu gravador de voz, que tinha acabado a fita antes do pôr do sol. Gagarin rebobinou parcialmente a fita e reiniciou sua narrativa com acionamento manual do gravador. Como resultado, uma parte de suas primeiras gravações foram apagadas.

Cerca de 09h50, Gagarin confirmou a ativação do sistema de controle de atitude responsável pela manobra de frenagem. Observou que a queda da espaçonave tinha abrandado, com propulsores de pequeno jato foi estabilizando o veículo.

Somente próximo à ponta da América do Sul, quando a Vostok estava perto do ponto mais alto da sua órbita, Yuri Gagarin observou melhora nas comunicações via rádio em ondas curtas. Desconhecidos para ele, às 09h53min, os transmissores de onda curta da estação Vesna em Khabarovsk tinham sido ativados por ordem expressa do General Kamanin com o objetivo de finalmente, assegurar a Gagarin que a sua nave espacial estava em órbita planejada e que o vôo estava decorrendo normalmente (mais uma vez, não está claro se esta mensagem enganosa era uma tática para dar um impulso psicológico a Gagarin ou o resultado de ignorância por parte dos gerentes da missão).

09h54 – Vesna (Kadushkin): O vôo decorre normalmente, a órbita está calculada.
09h55 – Gagarin: Entendido, o vôo decorre normalmente.

Quando a Vostok cruzou o Pacífico para o Atlântico, Gagarin estava determinado a não perder o nascer do Sol. No momento certo, ele olhou para a janela Vzor. Ele viu um arco de repente, uma luz laranja brilhante no horizonte. A borda inferior do arco, em seguida, mudando para um azul suave através de todas as cores do arco-íris e ainda nesse momento, a superfície da Terra estava escura.

Quando o Sol surgiu no horizonte, o sistema de controle de vôo obteve a referência exata para a orientação da nave para o pouso. Gagarin sentiu a nave guinar, quando o sistema de controle de atitude estava “pegando” o Sol no sensor principal. A Vostok estava então pronta para a manobra de desorbitagem.

Às 10h02, a rádio de Moscou finalmente confirmou o tão esperado anúncio sobre o vôo. Dada a intenção original de anunciar o lançamento 20 minutos após o fato, ainda não se sabe se o atraso foi o resultado da burocracia ou pelo trabalho para confirmar os parâmetros orbitais.

continua…

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