Reproduzo aqui, trecho de matéria da revista Globo Ciência de novembro de 1991 (páginas 26 e 27), cujo título principal é “Em Busca dos Outros”, texto que busca desvendar os primeiros estudos na época em relação à vida extraterrestre. Ciência essa que hoje está em plena expansão e amadurecimento. Vejamos:

A Procura tem já tem nome: Exobiologia

Capa da Revista Globo Ciência de novembro de 1991

O filósogo grego Metrodorus, no século 4 a.C., já considerava absurdo ser apenas a Terra o único mundo habitado no universo. O monge e filósofo Giordano Bruno (1550-1600) afirmava que os planetas são corpos que acompanham as estrelas e deveriam formar mundos habitados. A questão sobre a existência de vida extraterrestre acompanha o ser humano, portanto, desde a Antiguidade. Entretanto, foi somente neste século – mais precisamente a partir do final da década de 50 – que esses estudos ganharam destaque e dimensão científica. Em sua tese de mestrado História da Conquista da Vida e Inteligência Extraterrestre (1959-1971), defendida no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras da Universidade de São Paulo, Eduardo Dorneles Barcelos determinou, como marco inicial de seu estudo, a publicação em 1959, na revista inglesa Nature, de um artigo de Giuseppe Cocconi e Philip Morrison sobre a possibilidade de comunicação por rádio com civilizações extraterrestres.

“A partir dessa data”, escreve Barcelos, “multiplicam-se os artigos sobre o tema nas principais revistas científicas internacionais; surgem grupos de cientistas voltados para a detecção de civilizações extraterrestres, através do apoio e financiamento de organizações científicas nacionais, como a National Science Foundation, dos Estados Unidos, e a Academia de Ciências da URSS; organizam-se simpósios, congressos e eventos sobre o tema; adota-se um nome para a disciplina: exobiologia; o tratamento da questão passa a ser feito basicamente através da proposição de produtos científicos.”

Não foi por acaso que o tema ganhou destaque naquela década. Era a época das primeiras explorações espaciais, e a astronomia assumiu o status de ciência de defesa, desenvolvendo-se enormemente, a partir de então, devido a preocupações militares. “Com a astronáutica e a radioastronomia, possibilitou-se uma revolução  nas concepções sobre o universo, tornando palpável e aprofundando o conhecimento dos céus via radioondas”, escreveu Barcelos, assinalando que a exobiologia surgiu paralelamente ao início das atividades do Observatório Nacional de Radioastronomia, nos Estados Unidos, em 1959/60, local da primeira SETI (Search of Extraterrestrial Intelligence), feita por Frank Drake.

Justificando cientificamente seu projeto de radioescuta espacial, Drake destacou, do ponto de vista astronômico, que as estrelas são continuamente produzidas, que existem estrelas semelhantes ao Sol na nossa galáxia e que talvez 60% das estrelas solitárias estejam acompanhadas de sistemas planetários. Do ponto de vista da biologia, a referência foram as experiências de síntese das complexas moléculas prebióticas que, por evolução, chegariam à vida.

 

Frank Drake

Drake chegou a formular uma equação para medir a probabilidade de existência de seres vivou extraterrestres. Ela leva em conta fatores astronômicos, biolóbicos e até parâmetros como o tempo de duração de uma sociedade tecnológica. Sua equação: N = R x Fp x Ne x Fl x Fi x Fc x L. Traduzindo, N = número de civilizações na galáxia com tecnologia de comunicação; R= ritmo médio de formação estelar na galáxia; Fp = fração de estrelas com sistema planetário; Ne= número médio de planetas, por sistema planetário, ecologicamente apropriados à vida; Fl = fração desses planetas com desenvolvimento efetivo de vida; Fi = fração desses planetas onde desenvolveu-se a inteligência; Fc = fração desses planetas com surgimento de uma civilização técnica comunicativa; L = tempo médio de duração de civilizações técnicas comunicativas.

“Os princípios que levaram à equação de Drake são certos. O problema é que não há dados suficientes para uma conclusão confiável”, diz o físico Romildo Póvoa Faria. Ele salienta, por exemplo, que a determinação de um tempo de duração de uma sociedade tecnologica e até mesmo a estimativa de que ela se autodestruiria “é absolutamente um chute”. Para o astrônomo Oscar Matsuura, a linha de raciocínio de Drake é altamente inconclusiva. “Se trabalharmos com suposições otimistas, podem existir milhares de planetas com vida; se pessimistas, estamos sós”.

Texto de Maria da Graça Mascarenhas

Nota sobre Eduardo Dorneles Barcelos

EDUARDO DORNELES BARCELOS (1962-2003), gaúcho de Porto Alegre, graduou-se em história pela UFRGS e fez mestrado e doutorado em história da ciência pela USP. Publicou diversos trabalhos sobre história da ciência e da tecnologia, em especial, sobre a história do estudo da vida e inteligência extraterrestres, seu tema de investigação. Escreveu dois livros sobre este último assunto: Telegramas para Marte (Jorge Zahar Editor, 2001) e Vida Extraterrestre (Editora Abril, 2003). Foi pesquisador do CNPq/Ministério da Ciência e Tecnologia e trabalhou junto ao Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST, RJ), além de lecionar nas Faculdades Integradas UPIS (Brasília). Entre 1994 e 2002 foi assessor especial da presidência da Agência Espacial Brasileira (AEB/MCT). Barcelos acompanhou de perto o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro e foi um de seus mais entusiásticos defensores. Faleceu em um acidente automobilístico em Brasília, em 22 de agosto de 2003, na mesma tarde em que morreram seus 21 colegas e amigos na Base de Lançamentos de Alcântara. Recém-eleito vice-presidente da Sociedade Astronômica Rio-Grandense (Sarg), talentoso divulgador profissional, Eduardo deixa um vazio imenso. Fonte: http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/onde_estao_todos_os_outros_.html

Nota: este blog não tem a finalidade de se apropriar de conteúdo de artigos  ou textos de outros autores. O objetivo deste post é apenas de “reavivar” o texto da revista citada, publicada há 20 anos, e torná-lo acessível aos internautas.

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